Dos sistemas de
Ptolomeu e de Copérnico, mais ou menos, vamo-nos lembrando, mas será que nos
vem à lembrança o sistema proposto por Tycho-Brahe, o astrónomo dinamarquês da
segunda metade do século dezasseis? Na gravura – de um manual português de geografia
do século dezoito – estão desenhados os três sistemas. O de Ticho-Brahe é o C.
Nele, a Terra está ao centro e em volta giram a Lua e o Sol, e em redor do Sol
giram os planetas conhecidos na época, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e
Saturno. No último círculo, também em volta da Terra, gira o manto de estrelas.
Não se tornou o sistema mais seguido, mas teve uma verdade observada que lhe
garantiu a discussão e a possibilidade. Havendo por aí tantos umbigos que são o
centro do universo, haveria o sistema de Ticho-Brahe, ou mesmo o de Ptolomeu, de
perder o seu fascínio?
ciberpalheiro
Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
reposição
às vezes
gosta-se tanto de um livrinho que até se gosta mais de o não ler. ficamos ali à
voltas do título e do miolo como no mítico bife com ovo a cavalo – isto se
acreditarmos em Barthes -
torneando a carne, banhando-a persistentemente com o molho, recortando o
ovo, repensando a arte ser carnívoro. goste-se pouco ou muito das edições
digitais, um livro é ainda aquela coisa que traz, por exemplo, o aroma das
margens do Nilo. o livro é vegetal até ao fim da alma.
Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
rapariga na piscina com biquini amarelo
posso fazer-lhe um elogio?
ao sol é mais do que um astro
muito mais do que a lua
continue deitada
menina
outros lhe hão-de louvar a beleza
não dizendo nada
não imagina que lhe dedico palavras
há uma arte
que é o de trazer secreto o íntimo desejo
vá vá dormindo
na vida
dar-se conta de que estou eu aqui
talvez lhe desse desacerto nos dias talvez
que importância tem abril neste caso?
morreremos eu
sem lhe dar o beijo
e a menina sem o saber
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012
teatro
Quando muita
coisa falha e a justiça fica escondida por vontade das ganâncias, e dá-se a
parecer que o teatro é um luxo que alguns teimam em manter com os seus brilhos
vindos da arte de ensaiar e transfigurar a vida, vem-me a lembrança de Epidauro e
a necessidade de lhe honrar a presença e não só a arquitectura, mas, sobretudo,
a gentileza de um encontro entre almas apaixonadas pela natureza dos mundos, os
que ainda conseguimos viver e os que andam além das nossas ilusões. A
responsabilidade de manter vivo esse lume é de todos nós, os que se interessam
por inventar outras almas e histórias e os que anseiam por visitar os lugares
onde podem desfrutar das invenções. Epidauro, todo o teatro, é a presença da
humanidade. Irreparável seria se houvesse esquecimento, sequer a tentação de
pensar que poderia ser esquecido. Simplesmente, já não será possível.
Continuemos, então, o luxo de Epidauro.
*
Imagem: Epidauro (foto: autoria desconhecida)
natividade e representação
A crente esteve
sentada, e depois ajoelhada, na coxia, numa das fileiras de bancos quase diante
da cruz central da igreja. Enquanto rezou deixou pousado no banquinho em frente
o embrulho com o bolo-rei da pastelaria Suíça. A uns metros da imponente cruz, para
a sua esquerda, a imagem de um Cristo, colorido, redentor e com auréola. No
tempo que ali se demorou, notava-se que a devoção era maior do que tudo. Era um
tempo largo, sem contratempo, a não ser, talvez, a pressa feliz de levar o
bolo-rei para casa e colocá-lo no centro da mesa, rodeado de pinhões, sultanas,
rabanadas e aletria. A devota acabou a sua oração. Levantou-se, pegou no embrulho
da pastelaria Suíça, deu uns passos para a sua direita, colocando-se bem diante
da imagem de Cristo, e ajoelhou-se de novo, benzendo-se. Menorizou a cruz
central. Havendo uma e outra, preferiu o homem.
Sábado, 31 de Dezembro de 2011
andemos
Há neblina na
costa. A surpresa é a luz, não o húmido que gosta de cortinar a paisagem. É uma
pradaria sem bisontes, a costa, uma areal de visitas. Enquanto isso, vem uma
canção de Charles Trenet e pombos e pardais tomam banho na fonte do jardim. Há
o cheiro do pão, as pedras coloridas no jogo de xadrez e também as figurinhas
do Príncipe Valente. Escutai, ó almas!, a vida é isso - diz um espírito benigno
com sorriso e flor ao peito – andemos enquanto for o tempo.
*
Imagem: Going home, de Thomas Hart Benton
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