
Os escândalos políticos por essa Europa fora já não dão sequer vergonha aos seus protagonistas, e comenta-se que pior do que um governante com autoridade conferida pela democracia poder fazer o que quiser só porque está dentro da sua quintarola é a lente fotográfica oculta e à distância capaz de revelar, precisamente, o que por lá se faz. Indiferentes ao espectáculo, ou até simpáticos com a vítima das revelações, os italianos reafirmaram o gosto na criatura que têm à frente do governo. Berlusconi é uma perigosa bizarrice democrática e
temos de aturar o espavento italiano. Até ver, as democracias de espírito representativo ainda vão suportando os farsantes. Em França, o partido de Sarkozy vence as eleições europeias e o partido socialista vai às malvas, tal como mais ou menos sucedeu aqui, mas na Lusitânia o desenlace foi mais suave e José Sócrates ainda terá tempo para afiambrar a retórica eleitoral e preparar-se para as legislativas. Não lhe será fácil embora também não lhe seja difícil erguer o espectro da actual dirigente social-democrata. Até agora tivemos as experiências de governação dessa gente do
bloco central numa enjoativa alternância democrática e os resultados estão à vista: fica-se com a sensação de que os governos não são mais do que organizações com o poder de proteger uns quantos homens de negócios, como se a vida social, a
coisa pública, fosse apenas um jogo na bolsa. É este descrédito que faz com que muitos cidadãos se interessem mais pelo ócio da abstenção do que por uma manifestação eleitoral ainda que com sinal branco no voto: participar seria estar cúmplice com as corrupções instaladas e as manigâncias do poder. Os partidos políticos do poder obrigam-se a ter a capacidade de restaurar a sanidade possível que a prática até criminosa de alguns dos seus dirigentes vai maculando. Assim é que ao ganharam novo ânimo – como é agora o caso do partido laranja que foi engordar a mancha azul do partido popular, liberal, do parlamento europeu – lá vêm com as falinhas mansas da
esperança,
futuro,
pequenas e médias empresas,
renovação,
portugueses,
portugal,
democracia,
determinação... enfim as palavrinhas que já são só baboseiras atiradas à pobreza de espírito. Muito gostam
eles de dizer muito não dizendo nada. Na verdade, e ao contrário do que Paulo Rangel diz para baralhar os dados, a “grande vencedora das eleições europeias” (na Lusitânia, entenda-se) não é Ferreira Leite. O Zé Magalhães é que perdeu, e bem. O candidato laranja eleito faz o seu papel e, claro, o ânimo conseguido - e ainda com as sombras do bpn e companhia - dá para se entusiasmar. Alguns eleitores que quiseram explicitamente castigar a política nacional com um voto europeu deixando-se seduzir pelo discurso de Rangel, fizeram-no, ao que vou sabendo, por manifesto
jogo táctico: seria vital que Moreira não conseguisse ganhar. Não ganhou e lá fez o discurso enjoativo do costume com a cassete do assumir da responsabilidade no desastre político. A verdade é que lá no parlamento europeu a mancha azul vai crescendo. Mas, felizmente, também crescem outras manchas. Eu cá, e desde que se constituiu, vou estando simpático com o Bloco. O de Esquerda, não o Central. Em muitos e importantes aspectos da vida política tem sido o BE a tomar a iniciativa porque todos os outros se encolhem nas suas atávicas responsabilidades ou procuram adormecer a consciência cívica dos cidadãos com esse indesculpável modo de fazer política que é o de criar indiferença para melhor reinar, embora defendam o contrário às vezes e nas campanhas eleitorais. O que acontece em França, por exemplo, com Cohn-Bendit sugere que a rosa socialista está a desmaiar para os Verdes. Na Lusitânia, a rosinha também está a desmaiar, mas, por mim, espero que não desmaie muito: vou querer que o senhor engenheiro se veja obrigado a governar com minoria. Ou será que já preparou um plano
à la Durão Barroso?