Terça-feira, Julho 07, 2009

MESTRE DAVID GOMES



O Sr. David Gomes corta os pescoços às suas estatuetas para delas conseguir uma posição justa, mais ao jeito do seu olhar. É um artista marceneiro, o Sr. David, e uma pessoa rara. Em pequeno, por via do pai e do avô, conheceu o ofício de fazer e refazer móveis, restauros e réplicas de peças antigas e nunca deixou de se entusiasmar com o rigor dos paus pretos, duros que nem meteorito, vinhática, nogueira, castanho... a música e o perfume dos veios. Tive a sorte de conversar com o Mestre David Gomes na sua oficina, numa tarde quente deste Verão, em Braga, no 23 da Rua do Anjo. Respira-se boa antiguidade nas mesas de trabalho, nos instrumentos de corte e medição, nos papéis de notas e encomendas, nos trilhos de muito e devotado trabalho, nas inúmeras peças compostas ao sabor do impulso artístico. Quase tudo por ali está à venda, na entrada da oficina, até um chapéu que o Sr. David diz ter pertencido a Salazar e que ele encontrou na gaveta de um móvel que veio de uma quinta que o sonso ditador gostava de frequentar. Como o chapéu é igual aos que o ele usava, o Sr. David sugere que terá pertencido ao ilustre de Vimieiro, e mais não diz e quem quiser que se entenda com o que é dito. Os santinhos em madeira têm proporções que nascem directamente da beleza, e para que se acendesse o fulgor das suas expressões, a maioria deles teve, então, os pescoços cortados. Há óculos de fantasia, pratos, malgas, uma edição oitocentista dos Lusíadas de Camões, lanternas, quadros, quadrinhos, Cristos, toalhetes fabricados com aparas de madeira e o mais que a imaginação fabricou e coleccionou, tudo à vista e para ser tocado. Muitíssimo afável, o Mestre David Gomes desenlaçou a sua história e desculpou-se até de nos roubar o tempo que julgou precioso. Que nada, Mestre! Assim fossem sempre os dias.

Fotos de Solange Sá


Sábado, Junho 20, 2009

A NÓDOA

A intermitência irregular é já a condição desta morada. Cumprir-se-á até que o fôlego, oferecendo ainda o sopro necessário para mais umas breves escrituras, se extinga com as peripécias em redor do lume. Outras freguesias reclamam a voz do dono, outras festas. Se isto é, ou foi, útil para alguma coisa nunca poderá saber-se. Provavelmente, muito provavelmente, é apenas uma nódoa mais na imensa toalha merendeira.

A Esfinge, de Gustav Moreau

Segunda-feira, Junho 08, 2009

SERIA VITAL QUE MOREIRA PERDESSE

Os escândalos políticos por essa Europa fora já não dão sequer vergonha aos seus protagonistas, e comenta-se que pior do que um governante com autoridade conferida pela democracia poder fazer o que quiser só porque está dentro da sua quintarola é a lente fotográfica oculta e à distância capaz de revelar, precisamente, o que por lá se faz. Indiferentes ao espectáculo, ou até simpáticos com a vítima das revelações, os italianos reafirmaram o gosto na criatura que têm à frente do governo. Berlusconi é uma perigosa bizarrice democrática e temos de aturar o espavento italiano. Até ver, as democracias de espírito representativo ainda vão suportando os farsantes. Em França, o partido de Sarkozy vence as eleições europeias e o partido socialista vai às malvas, tal como mais ou menos sucedeu aqui, mas na Lusitânia o desenlace foi mais suave e José Sócrates ainda terá tempo para afiambrar a retórica eleitoral e preparar-se para as legislativas. Não lhe será fácil embora também não lhe seja difícil erguer o espectro da actual dirigente social-democrata. Até agora tivemos as experiências de governação dessa gente do bloco central numa enjoativa alternância democrática e os resultados estão à vista: fica-se com a sensação de que os governos não são mais do que organizações com o poder de proteger uns quantos homens de negócios, como se a vida social, a coisa pública, fosse apenas um jogo na bolsa. É este descrédito que faz com que muitos cidadãos se interessem mais pelo ócio da abstenção do que por uma manifestação eleitoral ainda que com sinal branco no voto: participar seria estar cúmplice com as corrupções instaladas e as manigâncias do poder. Os partidos políticos do poder obrigam-se a ter a capacidade de restaurar a sanidade possível que a prática até criminosa de alguns dos seus dirigentes vai maculando. Assim é que ao ganharam novo ânimo – como é agora o caso do partido laranja que foi engordar a mancha azul do partido popular, liberal, do parlamento europeu – lá vêm com as falinhas mansas da esperança, futuro, pequenas e médias empresas, renovação, portugueses, portugal, democracia, determinação... enfim as palavrinhas que já são só baboseiras atiradas à pobreza de espírito. Muito gostam eles de dizer muito não dizendo nada. Na verdade, e ao contrário do que Paulo Rangel diz para baralhar os dados, a “grande vencedora das eleições europeias” (na Lusitânia, entenda-se) não é Ferreira Leite. O Zé Magalhães é que perdeu, e bem. O candidato laranja eleito faz o seu papel e, claro, o ânimo conseguido - e ainda com as sombras do bpn e companhia - dá para se entusiasmar. Alguns eleitores que quiseram explicitamente castigar a política nacional com um voto europeu deixando-se seduzir pelo discurso de Rangel, fizeram-no, ao que vou sabendo, por manifesto jogo táctico: seria vital que Moreira não conseguisse ganhar. Não ganhou e lá fez o discurso enjoativo do costume com a cassete do assumir da responsabilidade no desastre político. A verdade é que lá no parlamento europeu a mancha azul vai crescendo. Mas, felizmente, também crescem outras manchas. Eu cá, e desde que se constituiu, vou estando simpático com o Bloco. O de Esquerda, não o Central. Em muitos e importantes aspectos da vida política tem sido o BE a tomar a iniciativa porque todos os outros se encolhem nas suas atávicas responsabilidades ou procuram adormecer a consciência cívica dos cidadãos com esse indesculpável modo de fazer política que é o de criar indiferença para melhor reinar, embora defendam o contrário às vezes e nas campanhas eleitorais. O que acontece em França, por exemplo, com Cohn-Bendit sugere que a rosa socialista está a desmaiar para os Verdes. Na Lusitânia, a rosinha também está a desmaiar, mas, por mim, espero que não desmaie muito: vou querer que o senhor engenheiro se veja obrigado a governar com minoria. Ou será que já preparou um plano à la Durão Barroso?


Domingo, Maio 31, 2009

ETRUSCOS

Não resisto aos etruscos. Do que é possível mais ou menos conhecer das manifestações artísticas desse antigo povo que inventou morada naquela que é hoje a Toscana, na Itália central, há uma evidente alegria de viver que contrasta com a tirania das 65 horas semanais de trabalho que a União Europeia, através do Conselho e Comissão Europeia, pretendia impor às legislações nacionais, mas que o Parlamento Europeu mandou às urtigas. Viver para trabalhar – e em condições cada vez mais deploráveis - está, definitivamente, na moleirinha desses engenhosos políticos eleitos que usam o poder que vão tendo para fabricar novas leis a pretenderem anular o esforço de gerações e gerações de pessoas que lutaram pela dignidade da vida social, por direitos sociais, e que as democracias deviam obrigatoriamente preservar. Continua a ganância de uns quantos a querer fazer a vida negra a todos os outros. Os Etruscos são, no entanto, uma vantagem sobre os empresários de sucesso.


Quarta-feira, Maio 27, 2009

TENTAÇÃO

Em democracia, os partidos vivem a tentação da maioria absoluta. Quando já tiveram o privilégio de ser isso mesmo, maioritários absolutos, e novas eleições se aproximam, tendem a ser uns pedinchas e, por força da necessidade da famosa e inefável estabilidade, quase que exigem dos eleitores que metam a mão na consciência e tragam de lá o votito que favoreça, uma vez mais, o exercício absoluto do poder. Isto tem que se lhe diga. O gosto pela maioria absoluta só significa que é uma maçada governar tendo em conta os outros e que é muito mais fácil instalar o que se quer – mesmo que haja desonestidade nos comportamentos e toda a gente assista ao vergonhoso espectáculo - e sempre com o álibi democrático de ser a cor do poleiro aquela que a maioria dos eleitores escolheu. Há uma espécie de partido único nesta coisa de partido maioritário absoluto e a coisa é doentia e perigosa. Toda a gente percebe que é muito mais fácil governar à vontade, mas é precisamente este à vontade que é a fonte dos vícios maiores permitindo cumplicidades, garantidas e mantidas com sorrisinho cínico e arrogante, ou jogos corruptores institucionalizados por força de uma máquina que distribui pequenos poderes hierarquizados até ao comando máximo, refastelado na retórica do eu é que sei ou mesmo só nós é que sabemos. É raro encontrar um político que tenha gosto, ou arte, por governar com maioria relativa e que, portanto, saiba administrar o necessário pragmatismo da acção política com o jogo dos consensos. O nosso actual candidato à pedinchice política irá fazer um frete muito grande se o partido da rosinha ficar relativamente maioritário. É um daqueles políticos que apetece mesmo ver a baixar o tom da prosápia e a compreender de uma vez por todas que a democracia obriga necessariamente a escutar os outros.

Anfiteatro de Pompeios.

Domingo, Maio 17, 2009

PROTESTO



Para o folclore das auto-estradas, inventando sempre novos tapetes, há sempre investimento. Para as pequenas obras e que é mesmo do interesse das populações é que é o diacho. Diz-me um email que este protesto está em Várzea de Meruge, Seia, Serra da Estrela. O povo pediu ao presidente da junta que reparasse o piso da rua e pode imaginar-se a atenção com que o pedido foi recebido. Enquanto isso, plantaram as hortícolas nos buracos... e eis as couves! A inteligência do protesto aqui fica.


Quarta-feira, Maio 13, 2009

ZÉ MAGALHÃES

Leio na imprensa que o nosso Primeiro-Ministro vai à Madeira distribuir mais uns Magalhães. A iniciativa, que tem tanto de propaganda como de caricato (esta coisa de vermos uma vez mais o desempoeirado José Sócrates no papel de caixeiro-viajante estimula o riso, o que até será saudável em ambiente de crise, embora os que estejam atravessados de miséria e desemprego não vejam nisso graça alguma), está também politicamente pensada para garantir a simpatia daquelas crianças que um dia, possuídas de bom discernimento, e enternecendo desde já a Ministra da Educação, possam vir a votar no partido da rosinha. A máquina electrónica que tão generosamente é oferecida para garantir competências (que isto das aprendizagens virão depois) será um dia uma fonte de recordações. Hão-de lembrar-se todos da bondade do nosso Zé Magalhães. Então, com as unhas cravadas no teclado do computador, os olhitos metidos nos magnéticos píxeis do ecrã, os perdigotos de hoje vão desatar desde já a escrever cartinhas a Santo Expedito (que parece que intercede em favor dos cábulas nos exames), agradecendo a graça recebida. Mas as competências são o que são e muitos haverá que já pensam no negócio e hão-de querer fazer o que está anunciado num graffiti na Rua da Graça, em Lisboa.