Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

umbigos e sistemas


Dos sistemas de Ptolomeu e de Copérnico, mais ou menos, vamo-nos lembrando, mas será que nos vem à lembrança o sistema proposto por Tycho-Brahe, o astrónomo dinamarquês da segunda metade do século dezasseis? Na gravura – de um manual português de geografia do século dezoito – estão desenhados os três sistemas. O de Ticho-Brahe é o C. Nele, a Terra está ao centro e em volta giram a Lua e o Sol, e em redor do Sol giram os planetas conhecidos na época, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno. No último círculo, também em volta da Terra, gira o manto de estrelas. Não se tornou o sistema mais seguido, mas teve uma verdade observada que lhe garantiu a discussão e a possibilidade. Havendo por aí tantos umbigos que são o centro do universo, haveria o sistema de Ticho-Brahe, ou mesmo o de Ptolomeu, de perder o seu fascínio?

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012


faça-se campanha por um lugar ao norte
às portas do céu
época de feiras e lareiras
andam os bichos ao bom frio e já não as nuvens ao relento
no eiró     no café do rato
um bom licor de sabugueiro
para deitar a voz aos deuses

um céu que se oferece não exige esforço

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

reposição


às vezes gosta-se tanto de um livrinho que até se gosta mais de o não ler. ficamos ali à voltas do título e do miolo como no mítico bife com ovo a cavalo – isto se acreditarmos em Barthes -  torneando a carne, banhando-a persistentemente com o molho, recortando o ovo, repensando a arte ser carnívoro. goste-se pouco ou muito das edições digitais, um livro é ainda aquela coisa que traz, por exemplo, o aroma das margens do Nilo. o livro é vegetal até ao fim da alma.

Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

rapariga na piscina com biquini amarelo




posso fazer-lhe um elogio?
ao sol é mais do que um astro
muito mais do que a lua
continue deitada    menina
outros lhe hão-de louvar a beleza
não dizendo nada
não imagina que lhe dedico palavras
há uma arte
que é o de trazer secreto o íntimo desejo
    vá dormindo na vida
dar-se conta de que estou eu aqui
talvez lhe desse desacerto nos dias    talvez
que importância tem abril neste caso?
morreremos    eu sem lhe dar o beijo
e a menina sem o saber

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

teatro


Quando muita coisa falha e a justiça fica escondida por vontade das ganâncias, e dá-se a parecer que o teatro é um luxo que alguns teimam em manter com os seus brilhos vindos da arte de ensaiar e transfigurar a vida, vem-me a lembrança de Epidauro e a necessidade de lhe honrar a presença e não só a arquitectura, mas, sobretudo, a gentileza de um encontro entre almas apaixonadas pela natureza dos mundos, os que ainda conseguimos viver e os que andam além das nossas ilusões. A responsabilidade de manter vivo esse lume é de todos nós, os que se interessam por inventar outras almas e histórias e os que anseiam por visitar os lugares onde podem desfrutar das invenções. Epidauro, todo o teatro, é a presença da humanidade. Irreparável seria se houvesse esquecimento, sequer a tentação de pensar que poderia ser esquecido. Simplesmente, já não será possível. Continuemos, então, o luxo de Epidauro.
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Imagem: Epidauro (foto: autoria desconhecida)

natividade e representação


A crente esteve sentada, e depois ajoelhada, na coxia, numa das fileiras de bancos quase diante da cruz central da igreja. Enquanto rezou deixou pousado no banquinho em frente o embrulho com o bolo-rei da pastelaria Suíça. A uns metros da imponente cruz, para a sua esquerda, a imagem de um Cristo, colorido, redentor e com auréola. No tempo que ali se demorou, notava-se que a devoção era maior do que tudo. Era um tempo largo, sem contratempo, a não ser, talvez, a pressa feliz de levar o bolo-rei para casa e colocá-lo no centro da mesa, rodeado de pinhões, sultanas, rabanadas e aletria. A devota acabou a sua oração. Levantou-se, pegou no embrulho da pastelaria Suíça, deu uns passos para a sua direita, colocando-se bem diante da imagem de Cristo, e ajoelhou-se de novo, benzendo-se. Menorizou a cruz central. Havendo uma e outra, preferiu o homem. 

Sábado, 31 de Dezembro de 2011

andemos


Há neblina na costa. A surpresa é a luz, não o húmido que gosta de cortinar a paisagem. É uma pradaria sem bisontes, a costa, uma areal de visitas. Enquanto isso, vem uma canção de Charles Trenet e pombos e pardais tomam banho na fonte do jardim. Há o cheiro do pão, as pedras coloridas no jogo de xadrez e também as figurinhas do Príncipe Valente. Escutai, ó almas!, a vida é isso - diz um espírito benigno com sorriso e flor ao peito – andemos enquanto for o tempo.
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Imagem: Going home, de Thomas Hart Benton